El Ser Querido tem atuação da vida (e de Oscar) de Javier Bardem
Publicado em 19/05/2026 19:42
A fala de Esteban vem no primeiro momento em que ele elogia a atuação da filha no set. De acordo com o realizador, ela atuou bem porque escondeu seus sentimentos pessoais e deixou a personagem tomar conta da cena. É um conselho que não compramos, apesar da resposta positiva de Emilia na hora. Arte, Esteban sabe muito bem, se faz trazendo nossa bagagem para o que produzimos, e ele mesmo o faz ao usar seu novo filme, o fictício Deserto, para se aproximar da filha a quem nunca conheceu direito.
A segunda fala, que vem de Emilia, acontece quando ela encontra a família do pai. Sua segunda esposa, uma editora de livros, e dois filhos pequenos vêm visitar o set num fim de semana. Talvez nervosa, ela se embriaga o suficiente para que os adultos notem, mas não para que fique óbvio para as crianças. Por conta de conversas que testemunhamos entre os dois, sabemos que Esteban já foi a encontros com a filhas em situação parecida ou até pior, e se isso não fosse o suficiente para atiçá-lo, a frase de Emilia é: “Há coisas mais importantes que o cinema na vida, não é mesmo?” Ela direciona o questionamento para a nova parceira de seu pai, mas é ele quem recebe a mensagem.
Dirigido e escrito por Rodrigo Sorogoyen com inspirações reais, El Ser Querido está longe de ser o primeiro longa a abordar a ideia de famílias que processam, evitam e expressam suas dores através da arte. Quando ele foi anunciado na seleção do Festival de Cannes 2026, críticos rapidamente apontaram a aparente semelhança entre sua premissa e a do filme mais elogiado do evento no ano anterior – Valor Sentimental. El Ser Querido, porém, é mais bagunçado e turbulento, e num bom sentido. Emocionalmente, estes personagens experimentam um vai e vem que frequentemente os reduz às suas piores versões, e formalmente, Sorogoyen se mostra disposto a experimentar com as próprias técnicas do cinema para refletir o filme de Esteban em seu próprio longa.